Antes mesmo de estar grávida, já planejava como seria o meu parto. Na verdade planejar não seria a palavra mais adequada, mas sim sonhar. Pois bem, antes mesmo de estar grávida já sonhava como seria o meu parto. Sou canceriana, signo das águas, não poderia ser diferente, sonhava que meu parto seria assim! Na água. Acontece que para ter um parto assim, teria que estar bem assistida, muito bem assistida. Tudo teria que ser bem planejado, então fui por partes…..
Como ainda estávamos “planejando” para quando queríamos engravidar, comecei perguntando a amigas por ginecologistas bacanas para que já fosse me adaptando ao médico. Todas me indicavam ginecologistas em lugares muito longe da minha casa. Agora estava morando em Jacarepaguá, mas só tinha indicações de médicos pelos lados da zona sul. Resolvi apelar para a pesquisa no livrinho do plano mesmo. Fui pelo nome! O mesmo nome da minha antiga ginecologista de Copacabana, pra ver se dava boa sorte! Pesquisei, achei uma com o mesmo nome pertinho de casa e lá fui eu para uma consulta.
Na verdade, nessa primeira consulta minha maior preocupação não era a gravidez, pois a coisa ainda não estava sedimentada. Eram sim uns nódulos que eu tinha na mama e me preocupava disso me atrapalhar de alguma maneira na gestação. Portanto a prioridade era acompanhar os nódulos, que eram benignos e eu até já sabia do que se tratava. Fui então na primeira consulta com a ginecologista de mesmo nome pertinho de casa. Consultório lotado e espera longa… horas a fio lendo revistinhas desatualizadas e vendo televisão para distrair, até que entrei. Fiquei mais tempo do lado de fora esperando ser atendida, do que sendo atendida propriamente… feitas as perguntas iniciais de primeira consulta: nome, doenças anteriores ou de familiares e etc, fomos ao ponto. O que teria me levado até lá. O de sempre: exame de rotina ginecológico que toda mulher faz anualmente, mas, além disso, expressei minha vontade de engravidar e falei que gostaria de acompanhar uns nódulos que tinha no seio direito. Fomos para a mesa para fazermos os exames de rotina, mexe daqui e dali e depois retornamos a salinha da médica. Ela foi rápida e direta: “Então Susana, quando vamos marcar a cirurgia para retirarmos esses nódulos?” Êpa! Que cirurgia? Não queria operar, queria primeiro acompanhá-los… se não crescessem não haveria necessidade de tirá-los. Ela insistiu e eu também! Resolvi mudar de assunto e perguntar alguma coisa sobre o meu sonho de gravidez e parto. Então falei para ela que já estava pensando em engravidar e que meu sonho sempre foi o de ter o bebê na água. Um parto na água, bem suave. A sentença foi mais uma vez rápida e para mim cruel: “Você não vai conseguir fazer isso aqui no Rio de Janeiro, lugar nenhum aqui faz parto na água, isso não existe” Minha cara foi um misto de surpresa e choque. Não falei nada, só saiu da minha boca: “ahhhhhhh, é mesmo?” Saí da consulta com a certeza de que nunca, nunca mais voltaria nessa médica.
Resolvi ir a um médico longe mesmo, mas indicado por alguém conhecido. Ok, vamos lá. O resultado foi mais animador, fiquei pelo menos uns dois anos com essa médica e ela nunca cogitou a possibilidade de me operar para retirar os nódulos. Fomos acompanhando e só. Até que realmente decidimos começar a tentar engravidar, aí ela decidiu retirá-los antes. Adiei em dois anos essa operação. Ufa! O problema agora é que ela não trabalhava mais como obstetra, se iniciasse meu acompanhamento com ela de gravidez, fatalmente no parto iria para outro médico. Não queria isso. Nesse intervalo, uma amiga minha engravidou e teve o bebê acompanhada pela médica lá de cima, do nome igual pertinho da minha casa. Para mim era perto, para ela era uma viagem! Mas ela se despencava de longe para ser assistida por essa médica que resolvi dar mais uma chance quando me descobrisse grávida. Foi o que fiz…
Descobri a gravidez em janeiro. Tinha acabado de voltar das férias em Salvador. Minha tia, minha mãe e meus primos estavam aqui no Rio comigo. Foi uma festa e alegria a descoberta da gravidez. Só meu marido que estava, literalmente, do outro lado do planeta. Paciência. Marquei então uma consulta com a médica. Ok, vamos a segunda chance. Não é o que dizem? Todos devem ter uma segunda chance. Mais uma vez consultório lotado e espera horas a fio… revistinhas… televisão…. fui chamada! Ela não me reconheceu, não existia mais ficha minha no consultório, portanto os tramites iniciais foram feitos todos novamente… mil perguntas, etc, etc, etc. Chegamos ao ponto: “O que te traz aqui?” Falei que desconfiava que estava grávida, então ela me levou para a mesinha e fez o toque, disse: “Gravidíssima” Fiquei feliz com a confirmação. Quando voltamos para a salinha dela, pensei que ela fosse, pelo menos, me dar os parabéns ou perguntar se era o primeiro! Sei lá, ingenuidade da minha cabeça. Ao invés disso, ela começou a imprimir sei lá quantas páginas e ia me entregando… uma papelada, papel em cima de papel e depois que ela parou de imprimir, ela me passou um monte de exames para fazer. Exame de sangue, ok. Ultrasson para confirmar 100% a gravidez, ok. Entregou tudo e pronto, ficou me olhando com um “carão”. Aí eu resolvi desfazer aquela primeira impressão que tive com ela sobre o parto na água. Perguntei como se já não tivesse ouvido a resposta, sobre o meu sonho de ter um parto normal, na água. Ela não falou nada sobre a água, fingiu que não escutou, mas para a parte do parto normal, ela falou: “Ainda está cedo para discutirmos isso” Como assim? O que poderia existir para ser discutido? Estava expressando para ela o que gostaria que acontecesse, mas a sensação que tive foi que essa decisão caberia a ela tomar, sabe-se lá em que fase da gestação. Saí do consultório me sentindo um presunto, um pedaço de carne que é manipulado de um lado e de outro. Só aí lembrei dos mil papéis e fui ver do que se tratava. Eram informações sobre alimentação na gestação, exercícios na gestação, aleitamento pós gestação… Um monte de coisa pré-formatata, como se toda mulher fosse igual e como se toda gestação fosse sempre a mesma coisa. Só fiquei com uma dúvida! Será que se perguntasse alguma coisa para ela sobre o que estava escrito ali, ela me responderia ou me mandaria ler os papeizinhos?
Sentimento pós-consulta: “Nunca mais volto nessa filha da mãe” Agora era definitivo, segunda chance esgotada. Ela não era médica para mim. Comecei então a tentar achar pela Internet alguma relação entre médicos e partos na água. Ô trabalho… achei vários sites interessantíssimos sobre parto, gestação, parto humanizado e assim fui me familiarizando mais com a coisa. Cesárea era uma coisa distantíssima para mim, nem pensar! Ainda mais cesárea eletiva. Como assim marcar a data do nascimento do seu filho? Isso não existe. Nessas pesquisas pela Internet achei num desses sites legais sobre parto, uma listinha de vários médicos e enfermeiras-obstetrizes que acompanhavam partos humanizados e também parto na água. O único detalhe era que praticamente nenhum atendia por plano de saúde. O meu plano então, nenhum atendia. Que droga! Decidi tentar outra médica do plano, também pertinho de casa, para ver se a coisa começava a fluir.
Médica escolhida, iniciei minhas consultas. Essa era muito mais simpática, aliás, essa era simpática! Conversava comigo, tínhamos um diálogo, a relação era diferente. Só que ela não comungava das mesmas ideias que eu. Fui descobrindo isso aos poucos. Comecei descobrindo isso quando falei para ela que queria fazer alguma atividade física durante a gestação, queria me cuidar. Fazia yoga há anos e hidroginástica também, queria voltar a fazer as duas coisas. A hidro ela liberou, a yoga ela ficou toda reticente. Pombas! Eu sabia que existiam curso de yoga exclusivamente e especialmente para gestantes. Já tinha até pesquisado na Internet, só que pensava que precisaria de um atestado médico para fazer. Não fazia sentido ela não concordar com a yoga, isso me deixou fula da vida. Era o começo. Resolvi ir para a yoga mesmo assim. Yoga direcionada, ora, que mal tem? Moro em Jacarepaguá, mas só consegui uma yoga para gestantes ou no Flamengo ou em Copacabana. Dureza, mas resolvi encarar. A de Copacabana não dava, pois só acontecia a noite, período em que dou aulas. Comecei a fazer então yoga no Instituto Aurora, com a Fadynha. Além da parte prática, tínhamos também uma parte teórica, conversas sobre a gestação, parto, pós-parto. Enfim, o pacote completo. Foi lá com a Fadynha e também pelas minhas mil fuçadas na Internet que comecei a descobrir como era maravilhoso esse mundo do parto natural. Inúmeros mitos começaram a cair, vários paradigmas foram ultrapassados e fui percebendo que aqui no Brasil temos estatísticas alarmantes em hospitais particulares de taxas assombrosas de cesarianas feitas desnecessariamente. Não queria isso para mim. Além disso, comecei a ver que normalmente inúmeras intervenções são realizadas no parto, mesmo o normal, de maneira rotineira que nem a própria OMS indica. O sinal vermelho se acendeu dentro de mim e resolvi perguntar mais diretamente para a minha atual médica alguns pontos para me certificar se ela era a famosa cesarista, ou se era a obstetra do parto normal com intervenções feitas rotineiramente ou se concordava com minha idéia de parto humanizado. Foram várias consultas fazendo mil perguntas, sem embate direto, só para descobrir como era a conduta dela. Até o dia que perguntei diretamente: “Mas quero saber como é o momento do parto e que negócio é esse de episiotomia?” Fingi que nunca tinha ouvido falar de nada disso e me fiz de ignorante. Ela, sempre muito simpática, me respondeu que o parto normal era tranqüilo. Que eu iria para o hospital quando começasse a sentir as contrações, que chegando lá iriam me internar, me aplicar anestesia, que talvez demorasse algum tempo, sabe-se lá quanto, aí eu chegaria no momento de fazer força e que ela iria direcionando e me dizendo que fazer. E a episio era um corte que faziam na abertura vaginal para aumentar o diâmetro de passagem para o bebê. E eu perguntei: “Mas é necessário mesmo fazer a episiotomia?” Eis que veio a resposta: “Ora, claro, imagina como um cabeção de bebê vai passar por um buraquinho tão pequenininho?” Foi aí que tive certeza! Não dá, tinha que procurar um médico que trabalhasse mais na linha humanizada, senão iria passar por todos os cortes, manobras, soros, de maneira rotineira e sabe-se lá se necessária.
Foi na yoga que sedimentei o nome da pessoa que procuraria. Já conhecia pela lista da Internet vários nomes de médicos obstetras humanizados, só faltava agora conhecer pessoalmente alguém que tivesse sido acompanhada por algum daqueles nomes. Foi numa das minhas primeiras idas a yoga que conheci uma pessoa que estava fazendo yoga para o pós-parto e que tinha sido atendida por um médico daquela lista. Minha sorte: era um médico que atendia na Barra, não muito longe da minha casa! E assim escolhi meu terceiro médico. Agora era marcar uma consulta para ver se o santo batia pessoalmente. Médico para mim é assim, não basta ser médico, tem que rolar uma empatia! Marquei a consulta e fui. Cheguei lá no consultório meia hora mais cedo. Não era abarrotado… Fui atendida no horário. Quando ele saiu da salinha dele, a recepcionista me apresentou a ele. Achei engraçado. Entrei, ele me ofereceu água, mate. Para mim estava sendo tudo muito diferente. No final das contas já estava acostumada com aquele clima automático de consultório médico. Era óbvio o motivo de estar ali, pois o barrigão já estava saliente. Na minha primeira consulta com o Xico estava com 23 semanas. Falei para ele que já estava no meu terceiro médico e que estava a procura de alguém que tivesse um perfil que encaixasse com o meu. Falei que minha primeira médica tinha me dito que parto na água não existe aqui no Rio e esse era o meu sonho. Ele respondeu: “Engraçado, eu atendo partos na água só a 25 anos” Acho que devo ter ficado com cara de idiota na hora, porque não conseguia acreditar. Eis que ele me pergunta: “Mas afinal, o que você quer para o seu parto?” Acho que esse foi o principal paradigma a ser ultrapassado. Estava diante de um médico que iria assistir o meu parto, que iria me acompanhar no parto e não iria me fazer acreditar que eu era a coadjuvante enquanto ele tirava o bebê lá de dentro. Não! Era exatamente o contrário, ele iria assistir, eu iria atuar. Ele me questionava o que eu queria, não simplesmente me dizia o que seria feito. Ele estava ali para ouvir, eu teria que colocá-lo a par do que queria.
Olhei para a cara dele e ele olhando para mim, esperando…. O sentimento foi de vazio. Foi ali, naquele momento, que percebi como as mulheres não tomam as rédeas do que querem quando a história é parto. Foi ali que percebi como é vendida pela televisão uma realidade que não deveria existir. Foi ali que me senti ignorante, foi ali que vi que teria que começar a estudar para saber o que queria do meu parto. Enrolei, nem me lembro o que falei. Graças a Deus estava fazendo minhas aulinhas lá com a Fadynha e poderia aprender mais e mais. Graças a Deus era curiosa para fuçar mais e mais nos maravilhosos sites sobre gravidez e parto que temos na internet.
Saí da consulta quase uma hora depois de ter entrado. Minha sensação era um misto de alegria e medo. Alegria por ter encontrado um médico aberto, que estava junto comigo para um parto natural na água e medo, pois agora tinha que começar a planejar como gostaria que fosse o meu parto. Meu planejamento junto com a experiência dele! Estava nas nuvens. Agora sim a coisa começava a soar melhor para mim…

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