Gestar, elaborar, gerar, conceber…. inúmeras palavras para descrever ou explicar o momento único de ter uma vida dentro de você. Inúmeras palavras inúteis e frágeis para explicar o inexplicável….. como colocar em palavras o sentimento de gestar? Como explicar com palavras a sensação da gestação? Não existem palavras para descrever esse momento. O momento é único, íntimo, sagrado, singular e só de dois seres: mãe e filho.
Gestei meu primeiro rebento por trinta e nove semanas. A felicidade de tê-lo dentro de mim foi crescente neste período sagrado. A cada centímetro de barriga maior, crescia dentro de mim a certeza de estar realizando um sonho. Gestei com imenso prazer e não sentia nada que minimizasse esta minha felicidade. Gestei com tanta alegria, que no apagar das luzes da minha gestação o que senti foi saudade. Saudade de tê-lo dentro de mim, dançando no seu mar particular. Saudade de embalá-lo apenas com a minha respiração, apenas o bombear do coração…
Não pude deixar de morrer um pouco quando comecei a sentir que o trabalho de parto se iniciava. Morria em mim a figura da gestante, morria em mim a figura da pessoa errante, solitária. A partir daquele primeiro sinal de tampão se esvaindo do meu corpo, nunca mais estaria só, viveria só. As sensações se misturavam, era alegria de estar passando para uma nova etapa, era a tristeza de estar deixando para trás um “eu” que nunca mais voltaria. Quem morreu em mim naquele momento? Quem nasceu além do meu filho? Quem sou eu agora?
O trabalho de parto existe para que possamos fazer essa passagem de simples mulher para mãe-mulher. Quem tem medo do trabalho de parto tem medo de si próprio, medo do que o corpo tem a lhe dizer. Quando acordei naquela sexta-feira, ainda era uma mulher-menina e estava começando a trilhar a estrada da transformação. Seria essa estrada dolorosa? E se fosse, teria a coragem para trilhá-la mesmo assim? Lá fora do quarto outras pessoas participavam da minha história, avó, avô, sogra, cunhada, tia, marido. Coadjuvantes neste meu processo de transformação. Não permiti que ninguém trilhasse a estrada junto comigo, esse caminhar era apenas meu. Era eu a me metamorfosear em mulher-mãe e o meu estímulo era o meu filho. Ele se preparava para entrar em cena, para colocar para fora da minha vida a mulher-menina e fazer estreiar a mulher-mãe.
A cada contração o que sentia na verdade era um misto de alegria e medo. O desconhecido é sempre muito amedrontador. Estariam as contrações reguladas? Isto que estou sentindo é dor de trabalho de parto? Está tudo dentro da normalidade? Meu filho está bem? Como saber responder todas essas questões se nunca havia passado por aquilo antes? O que queria mesmo era estar só, eu e meu filho, protagonizando por completo o nosso momento… nada de medir contrações, nada de ligar para obstetra, nada de avisar para família, nada de ir para hospitais, nada… simplesmente nada. Mas como comprar essa briga com o resto do mundo? Digo, com a família? Fui dona de mim até onde me senti confortável. Mas a verdade é que não queria comprar uma briga para ter um parto verdadeiramente natural. Desassistido? Não, não precisava tanto. Talvez em casa, mas como ultrapassar a barreira familiar?
Na maternidade, no auge do meu trabalho de parto, o que mais passava pela minha cabeça era a alegria de estar proporcionando a mim mesma e ao meu filho as sensações que a natureza nos reservou. Queria sentir tudo, e tudo que tocava o meu corpo me atrapalhava. Queria me sentir, isso para mim bastava. Queria sentir também o apoio do meu marido, sua presença, pois isto me dava forças. De vez em quando uma pontinha de medo de não conseguir surgia, principalmente nos momentos finais, onde a progressão do trabalho de parto estava praticamente estacionada, contrações fracas e muito rápidas. Eu só pensava se teria competência para colocar meu filho para fora de mim. Mas será que queria? Queria mesmo que ele saísse e me apresentasse um novo mundo? Teria eu maturidade suficiente para segurar este rojão? Não dava mais tempo para fazer diferente… ele queria sair, devagarzinho mas queria! Ele queria me conhecer por fora….
As horas íam passando e esse misto de medo e alegria permanecia em mim. Muitas mentalizações, muitas respirações para manda esse medo embora… eu estava bem apesar de cansada, estava bem assistida e isso me tranquilizava. O grande momento se aproximava, apesar do cansaço e do medinho de vez em quando, eu estava muito tranquila. Estava passando pelo momento mais singular da minha vida, parindo uma vida! Uma vida totalmente dependente de mim. Além de muito amor correndo nas veias por esta vida, a sensação de responsabilidade sobre ela também é imensa. Seu filho, um bebê, um ser, alguém que você está prestes a conhecer. A sensação de cocô aumentava e aumentava também a certeza de que meu filho estava abrindo os caminhos para chegar ao mundo. Frágil, forte, puro e envolvido por boas vibrações. 22:30hs e o que antes estava guardado dentro de mim desabrochava. Rafael nasceu, meu filho chegou. A emoção do momento é ensurdecedora e te cega… você não enxerga nem ouve mais nada. Só olha para a sua cria e só. O resto da vida é pouco para guardar tanto amor que sinto por você.
Os agradecimentos para este momento mágico vão, em primeiro lugar, ao meu filhote. Guerreiro que suportou lindamente junto comigo todo o trabalho de parto. Meu marido Felipe sempre presente desde os momentos iniciais em casa no monitoramento das contrações. Aos meus acompanhantes nesta viagem louca, minha doula Fadynha que com suas mãos leves minimizava as minhas contrações. Meu obstetra Xico que se fez presente nas horas necessárias com sua paciência para aguardar o desabrochar de uma vida naturalmente.
Amo vocês e obrigada, Susana.
